O São Paulo vive dias turbulentos fora de campo, e a saída de Muricy Ramalho escancarou ainda mais o momento delicado do clube. Oficialmente, o motivo é a saúde. Nos bastidores, porém, o cenário político pesa e muito.
A saída de Muricy Ramalho do Tricolor
Ídolo eterno do São Paulo, Muricy Ramalho deixou o cargo de coordenador de futebol nesta sexta-feira (23). O clube confirmou a decisão após o próprio Muricy pedir para se afastar, alegando a necessidade de cuidar da saúde depois de procedimentos cirúrgicos recentes.
Em comunicado oficial, o São Paulo reforçou que a decisão partiu do ex-treinador, que optou por abdicar da função diante do momento pessoal delicado.

Saúde em primeiro lugar, mas o contexto chama atenção
Embora a questão médica seja real e relevante, o timing da saída chama atenção da torcida. Muricy ocupava o cargo desde 2021, tendo contrato renovado até o fim de 2026, após a reeleição de Julio Casares em 2023. Ou seja: não se tratava de um ciclo perto do fim.
Crise política no São Paulo agrava o cenário
A saída de Muricy acontece em meio a um terremoto político no Morumbi. Na quarta-feira, Julio Casares renunciou à presidência do clube após o avanço do processo de impeachment no Conselho Deliberativo.
O agora ex-presidente é alvo de investigações na Justiça, envolvendo possíveis desvios de dinheiro e saques suspeitos nas contas do clube. A pressão aumentou desde o fim do ano passado, quando o pedido formal de impeachment foi protocolado. Com a renúncia, Harry Massis assumiu a presidência de forma definitiva e já trabalha para reorganizar a estrutura do futebol.
São Paulo busca substituto
Sem Muricy, o São Paulo busca um novo nome para atuar como elo entre diretoria e departamento de futebol. Alguns candidatos estão sendo avaliados, mas nenhum nome foi revelado oficialmente até o momento. O presidente Harry Massis afirmou estar “em cima do assunto” e quer uma definição o mais rápido possível, para evitar que a instabilidade política respingue no desempenho dentro de campo.
Carta de despedida emociona a torcida
“Dizem que a nossa casa é onde o coração está. Se isso é verdade, eu nunca saí deste lugar desde o dia em que atravessei os portões do clube pela primeira vez, ainda um menino cheio de sonhos. Aqui eu nasci, cresci, vivi e envelheci. Passei por todos os cargos que poderia no clube e, seja no campo, no vestiário ou fora dele, a minha motivação sempre foi a mesma: o amor incondicional pelo São Paulo Futebol Clube.
Nos últimos anos, tive o prazer de estar em uma outra função: como coordenador técnico. Tivemos melhorias, conquistas inéditas, muitas emoções e muito trabalho. Uma função de bastidor, mas que exige viver o clube 24 horas por dia numa intensidade brutal para muitos.
Quem me viu como jogador ou técnico sabe: não sei fazer nada pela metade, não sei ser mais ou menos. Ou eu me entrego ou não serve. Minhas marcas registradas sempre foram a paixão pela intensidade.
E é justamente por amar demais este clube e por respeitar minha essência que eu decidir sair. O corpo tem os seus limites e o meu pediu uma trégua. Questões de saúde, que tentei contornar, hoje me marcam em cima. “
Análise: coincidência ou consequência do caos?
Para o torcedor, fica a sensação de que a saída de Muricy não acontece no vácuo. A soma de problemas políticos, mudanças na presidência e pressão interna criam um ambiente pesado, até mesmo para alguém com a moral e a história de Muricy.
Mesmo que a saúde seja o fator decisivo, é impossível ignorar que o São Paulo passa por uma de suas fases institucionais mais delicadas dos últimos anos. E, nesses momentos, figuras históricas acabam sendo engolidas pelo contexto.